
Giba, Gustavo, Fernanda Venturini são nomes costumeiramente associados ao sucesso do técnico Bernardinho. De fato, esses e outros jogadores contribuíram muito para a fama do treinador se espalhar, mas um dos pilares de sua carreira está fora das quadras. Aliás, nunca jogou vôlei profissional e sequer tem porte físico de atleta da modalidade: trata-se da estatística Roberta Giglio, a Robertinha, que o acompanha desde 1997 e é a responsável por fornecer a ele filmagens e dados de todos os adversários.
Se Bernardinho precisasse fazer a escolha de apenas uma pessoa para trabalhar ao seu lado, certamente Robertinha estaria entre as mais cotadas para ser a eleita. Extremamente interessado em números e análises dos rivais, o técnico chega a ficar até altas horas da madrugada ao lado da estatística trabalhando na montagem da tática para vencer o próximo rival. Robertinha explica como funciona a parceria:
- O Bernardo trabalha muita tática e dá preferência em saber em qual situação a bola vai chegar para o atacante. O principal, no nosso trabalho, é tentar minar as possibilidades do levantador. Queremos descobrir quando a bola vai chegar em uma determinada posição porque sabemos que, aí, o levantador vai fazer isso ou aquilo. A partir disso, definimos a prioridade do nosso time, para tentar chegar montado no bloqueio e estarmos preparados na frente do atacante.
A ideia é impedir que os oponentes consigam fazer o que sabem de melhor:
- Claro que um jogador habilidoso pode fugir de tudo isso, mas montamos a equipe para provocar que o adversário faça algo que ele não tem tanta facilidade. Por exemplo, para um cara que ataca muita bola na diagonal e não tem tanta facilidade no corredor, vamos deixar essa posição de "isca". Aí, depois de alguns ataques, ele vai perceber a paralela aberta e querer virar uma bola ali, só que acaba colocando para fora. Além disso, na hora em que a coisa aperta, o levantador não vai fugir quase nada da sua característica principal: ele vai jogar com quem tem mais segurança.
O resultado é fácil de mensurar: além do hexacampeonato com a equipe do Unilever na Superliga feminina, a dupla Bernardinho e Robertinha somam as conquistas de três medalhas olímpicas (um ouro e uma prata no masculino e um bronze, em 2000, com as mulheres), três títulos mundiais, oito edições da Liga Mundial, um Grand Prix, duas Copas do Mundo, duas Copa dos Campeões e um ouro em Jogos Pan-americanos.
Mas para alcançar este nível de eficiência o técnico não dá moleza. Robertinha acompanha tanto a seleção quanto a Unilever em todos os jogos e viagens. Ela precisa filmar ou obter vídeos dos adversários e obter as estatísticas solicitadas através de um software desenvolvido pelo próprio pai e especificamente feito para atender às necessidades de Bernardinho. O diferencial com relação ao que acontece com o futebol - onde o Footstats é o programa mais utilizado pelos times brasileiros -, os dados introduzidos neste sistema se tornam valiosos por serem únicos.
- Um das coisas que fazem o seu trabalho render melhor é ter a afinidade com o treinador. O que é bom para você, pode ser mais ou menos para mim e pode ser ótimo para outra pessoa. Nós aqui ganhamos muito no tempo de convivência. Por isso que eu acho que a estatística é uma coisa particular. No máximo, o que eu faço é pegar imagens forncecidas outros times, mas a maioria troca tudo, incluindo o banco de dados. Eu e o o Bernardo somos totalmente contra. Muitos técnicos não levam a coisa tão a sério com ao gente, mas eu acho que esse é um dos diferenciais do Bernardo: de ter os dados e saber usá-los.
Durante as partidas, Robertinha fica responsável pela filmagem, de forma a analisar futuramente o que deu e o que não deu certo com a própria equipe. Enquanto isso, os auxiliares de Bernardinho estão no banco de reservas equipados com um laptop para fazer a introdução e análise do jogo em tempo real. Assim, é possível saber se todos os jogadores estão cumprindo o combinado no vestiário e se houve alguma mudança na tática do adversário. Assim, alguma mudança pode ser facilmente realizada.
Robertinha conta que, quando começou na profissão, na década de 90, ter estatístico "era um luxo" no vôlei. Atualmente, ela diz ser "impossível um time ir a uma competição sem essa figura". Entretanto, ela acredita que a profissão ainda precisa evoluir muito, especialmente quando se fala de profissionalização:
- Ninguém pede nada para entrar na nossa função. Se alguém quiser colocar amanhã a camisa de um time e filmar o outro, essa pessoa vai. O modo mais fácil de você entrar em uma equipe hoje é filmando. Muitas pessoas querem ser o assistente ou o preparador físico e essa porta é a maneira mais simples de conseguir. Tem muita gente que acha que ser estatístico também é só saber mexer no computador. Já vi inúmeras pessoas que estão sentadas lá e não sabem nem o que é posição 1, mas se o computador quebra, sabe consertar. Eles estão recebendo os dados, mas não sabem trabalhar com eles. A tecnologia veio para ajudar, mas encobre muita gente que não tem capacidade de estar no vôlei.



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